Páginas bolsonaristas que espalham fake news tiveram mais likes na pandemia

Reportagem sobre resultados do Grupo de Pesquisa ‘Democracia e Tecnologias Digitais’ no Tecnoblog, por Pedro Knoth

Crédito: Roque de Sá – Agência Senado/ Flickr / Tecnoblog

Enquanto o Brasil se mobilizava para combater a COVID-19 no primeiro ano da pandemia, páginas aliadas ao presidente Jair Bolsonaro e conhecidas por disseminarem conteúdo falso ganharam força, segundo um estudo da Universidade Positivo. No auge de interações, em maio de 2020, 27 perfis que espalham fake news tiveram 14 milhões de likes e compartilhamentos. Entre eles, está o canal Terça Livre, cujo dono, Allan dos Santos, é investigado pelo STF no Inquérito das Fake News.

O estudo da Universidade Positivo foi realizado com base em investigações feitas pela CPMI — Comissão Parlamentar Mista de Investigação — das Fake News, criada pelo Congresso em 2019 para apurar casos de disparo em massa de notícias falsas durante a campanha eleitoral de 2018, principalmente as que beneficiaram a coligação do então candidato Jair Bolsonaro.

A pesquisa da Universidade Positivo apresenta uma análise de 27 perfis que espalham boatos no Facebook entre 2010 e 2020; ela mapeia as interações, como curtidas e compartilhamentos, das páginas. Algumas das principais contas citadas são de apoiadores de Bolsonaro, como o canal Terça Livre e a página Jacaré de Tanga.

Perfis que divulgam conteúdos pró-Bolsonaro e desinformação sobre máscaras, pandemia e tratamento precoce, tiveram 257 milhões de interações no Facebook, em 10 anos.

Além disso, os pesquisadores identificaram que as páginas produziram 206,6 mil posts entre 2010 e 2020. O monitoramento foi feito usando a ferramenta CrowdTangle, que rastreia links e interações não só no Facebook, mas também no Twitter.

Páginas cresceram um ano antes do impeachment de Dilma

Pesquisadores observaram um aumento de interações das páginas de fake news um ano antes do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

A partir de 2015, esses perfis tiveram crescimento em número de posts e engajamento até 2018 — ano das eleições presidenciais —, quando juntos ultrapassaram a marca de 9 milhões de curtidas e compartilhamentos, entre setembro e outubro daquele ano.

Os 27 perfis analisados passaram a fazer 3,6 mil posts por mês, em média. Mas foi em maio de 2020 que contas de fake news mais bombaram: as páginas somaram 14 milhões de interações no mês, em plena pandemia — no mesmo período, atingiram uma média de 5 mil posts mensais.

O coordenador da pesquisa, Eduardo Faria Silva, diz ao Tecnoblog que os dados podem apontar um movimento coordenado de páginas que disseminam mentiras para crescer nas redes após 2015:

“Tudo indica que há um trabalho estruturado que permita a criação de conteúdo dessas páginas. Quando você observa um padrão de crescimento de um determinado tema vindo de páginas diferentes, pode haver uma orientação comum de como atuar nas redes — um padrão de comunicação. Essa é uma das hipóteses do estudo.”

Eduardo pontua que os compartilhamentos e likes são as principais formas de comunicação entre as páginas de fake news e os leitores: quase 88% das interações nos perfis são shares ou reacts no Facebook.

Terça Livre é o portal bolsonarista que mais cresceu

A partir do primeiro recorte de 27 perfis, o estudo traz uma análise aprofundada de seis das principais páginas que espalham fake news. Entre elas, está o canal Terça Livre, do blogueiro Allan dos Santos. Ele é investigado em dois inquéritos separados que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF).

Apesar das investigações do Supremo e da Polícia Federal, este foi o canal de fake news que mais cresceu no Facebook entre 2017 e 2020.

No primeiro ano da pandemia, a página de Allan dos Santos se tornou o canal bolsonarista com mais postagens dentre as seis páginas analisadas; o Terça Livre esteve perto de bater a marca de 8 milhões de interações. Outro perfil em destaque na pesquisa é o portal religioso e de direita, o Gospel Prime.

Além do cunho político, a pesquisa analisa outras páginas que espalham boatos em diferentes áreas, como saúde ou ciência.

Contas como a página de terraplanistas Terra Plana – Flat Earth, e de nutrição, chamada Naturalmente Saudável, cresceram após o primeiro ano do mandato de Bolsonaro. Elas atraem um público parecido com o do Terça Livre, segundo pesquisadores.

“É possível mencionar através do relatório que a estratégia da desinformação tem foco em linguagens diferentes para atrair diferentes públicos, ou o quer chamar atenção das mesmas pessoas mesmo com formas diferentes de se comunicar com ele”, diz Eduardo, que também é professor do Mestrado em Direito da Universidade Positivo.

Após a abertura do Inquérito nº 4.871, mais conhecido como Inquérito das Fake News, pelo STF, as páginas bolsonaristas começam a perder fôlego nas redes. O volume de likes, compartilhamentos e comentários decaiu, junto com a quantidade de postagens feitas por mês. Isso atingiu perfis como o Terça Livre.

Leia mais em: https://tecnoblog.net/486748/paginas-bolsonaristas-que-espalham-fake-news-tiveram-mais-likes-na-pandemia/
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